sexta-feira, 30 de março de 2012

Prazer que dói


O sol nasceu ao meio-dia
E só pensamos em acordar
Para um sonho mais real
Onde exista prazer sensual no ar.

A neblina da cidade é feita de ócio,
A beleza da cidade é feita de concreto e pó.
Me faça esquecer da poesia mais bela
Para senti-la na pele com a dor da palavra que sai em suor.
Bebendo cada gota do fel
Sinto que aqui a chuva é ácida, rasgando o céu.

A rotina da cidade é vício,
Quando o corpo é pequeno
Para suportar o peso do sacrifício.
Se você sente um certo vazio
Sabe bem o que estou dizendo:
É sobre o verme corroendo,
É sobre o gosto de um beijo
Que vem de um falso desejo.
É querer rasgar as entranhas
Em um dia de entrelinhas estranhas
Para não deixar vazar lágrima por lágrima
Num lugar tão feio e seco!

  Esqueçamos o lago de fogo, então,
  Para brindar à dor contida no copo.
  Beba o máximo que suporta,
  Pois nossos limites chegarão
  Nesta vida que é tão real
(Natural ilusão).
      Então se você quer um corpo que não é seu
  Celebre isso com alguma posse,
  Celebre à cidade, à renúncia, ao ópio,
  Transforme o ódio em poesia e dose.




quinta-feira, 29 de março de 2012

A Justiça é invenção dos homens




"A história é simples: Um homem vive na prisão e morre. 
Como ele morre é fácil, 
o quem e o porquê são a parte complexa, 
a parte humana, 
a única parte que vale conhecer."

Augustus Hill, no seriado Oz.


domingo, 25 de março de 2012

Carnaval Místico

                                                                                  A carne é fraca
                                                                                    E o desejo predomina
                                                                                      Dentro de qualquer um,
                                                                                        A carne é assassina
             E eu sonhei contigo
             Sentindo aquele teu gosto,
            Finalmente consigo
          Fitar direito teu rosto
       Só que a verdade é fria:
      Entre nós há um corte,
     Há o abismo temporal
      Entre a vida e a morte.
        Entre nós não há nada
          Além do sonho que eu cultivo
            Por ser a carne fraca
              E o desejo vivo.
















Déjà Vu

 Todos os luxos, todos os lucros são poucos,
Há uma fome maior que o mundo!
A delícia do delírio e da dor são únicos;
Cada migalha e cada medalha minguam,
Evaporam vulgarmente sem prestígio.
Há uma fome maior que o mundo!

A delícia do delírio e da dor são poucos
E cada vil gota é essencial para nós
Que não nos damos por satisfeitos;
A delícia do delírio e da dor são meus,
Pois cada luxo e cada lucro vem em dobro
Como necessidade da próxima hora.


Essa fome me devora,
Há uma fome maior que o mundo! 
E cada vil gota é essencial para nós 
Como fonte de alimento agora,
Evaporam vulgarmente sem prestígio 
Como necessidade da próxima hora.


Essa fome me devora 
Como fonte de alimento agora,
Evapora vulgarmente sem prestígio,
Pois cada luxo e cada lucro vem em dobro 
Para nós que não nos damos por satisfeitos.
Há uma fome maior que eu.

quarta-feira, 21 de março de 2012

O que a Natureza espera de nós?



Luminosidade num velho apartamento com piso de madeira.
Eu, só uma criança, uma menina vestida em roupas leves de cores suaves.
Sentada no chão da sala de um velho apartamento.


Silêcio.
Silêncio e solidão. Apenas a voz da mãe cantando uma música antiga.
Mas minha irmã vem brincar comigo.
Tudo parece tão limpo e tão bom!


Tudo é simplicidade; mas algo dentro de mim é medo, um medo tão remoto
que é ignorado, distante como algo que só brotará no futuro.
A menina tem medo de ficar só, de se perder, do escuro. 
A menina sabe que um dia vai crescer e vai ter de enfrentar esses medos...
A menina às vezes chora. Aquela menina que era eu...


Naquele apartamento a vida era certeza, segurança e felicidade.
Sem dúvidas, sem ódio, sem inveja, sem mágoa, sem ambição.
As crianças brincam de boneca, pulam elástico, corda, amarelinha, 
correm na escola, caem na rua, aprendem a somar...
A mãe prepara água para o banho...
Logo logo o pai vai chegar e nós vamos nos esconder debaixo da mesa.


Dia de praia... Domingo... Naquele tempo era mesmo divertido, 
como os dias de ir brincar no parque. Vamos brincar na areia e comer besteiras... 


Nos dias de frio havia a gripe, mas havia o chá da mãe, o colo,
as historinhas à noite... Ficar enrolada de baixo das cobertas... Dormir no quarto dos pais...


Havia o medo dos fantasmas, porque o sobrenatural existia, porque Deus existia 
e me amava, e eu falava com ele todas as noites, e meus pais me abençoavam 
todas as noites...


Podíamos passar horas na janela do quarto, observando as nuvens, era legal...
Podíamos anoitecer ouvindo FM em meio aos ursinhos...
Porque tudo valia a pena. Porque tudo era fácil.


As festas comemorativas não tinham função puramente capitalista
naqueles dias.


Dentro de mim havia um sonho... Não havia maldade, não havia malícia... 
Havia convicção na existência de um paraíso, uma certeza profunda 
que criaturas mágicas me protegiam e guiavam...


Lembro que houve uma luta, onde era eu contra um mundo violento,
diferente do qual eu conhecia.


E tudo mudou. Cenário, figurino, história e canções... Até mesmo os personagens 
não são mais os mesmos...


O que aconteceu com meus pais? Envelheceram, distanciaram-se, 
viraram outras pessoas para mim... Não eram tão seguros, protetores, verdadeiros e corretos como eu imaginava.


O que aconteceu com Deus? Desapareceu de dentro de mim, 
entre um livro e um fato, entre uma lição e uma decepção...


O que aconteceu com a menina? Se transformou nesta pessoa fria 
e sem grandes esperanças... 
Quando aconteceu?
Que mundo é esse meu agora?


Céus! Uma vida tão curta, tão insignificante diante do Universo! 
Como é possível que eu tenha sido, na mesma vida, um anjo e um demônio?



terça-feira, 20 de março de 2012

Conceitos da Vida

Eu vejo a vida em seus detalhes...
No ar, no fogo, na água, na terra e no espírito.
E eu vivo meu afã
E eu vivo meu e teu detalhe...
Mas não sei o que é a vida,
Diga-me o que é a vida!
Eu busco loucamente por respostas
E elas estão em cada canto
Esperando explicação ou tradução considerável.
Eu olho para o céu e sinto que não há solidão
Defronte todo esse vazio que nos cerca,
Eu vejo que não há sofrimento em minha alma, quando ela peca.
E o que seria o pecado?
E por que é pecado se me faz feliz?
Teu mundo é pequeno e injusto,
Você também não sabe o que diz!
São sem fundamentos os medos da dor
E sem fundamentos os conceitos do amor.
Não acredito nestas correntes que prendem
No que, na verdade, não mata e nem fere.
As regras dos tolos eu desprezo,
As regras da vida eu respeito.
Não há exatidão, 
São feitos de ilusão esses nossos conceitos. 


On the Road

"Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício, explodindo como constelações, em cujo centro fervilhante pode-se ver um brilho azul e intenso, até que todos 'aaaaaah!"




"Foi triste vê-los partir; percebi que jamais voltaria a ver qualquer um deles, mas na estrada era assim mesmo."


-- Frases de Jack Kerouac

"Temor

Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante lhe oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
Não sinta o nosso peso.


Deitemo-nos aqui. Abre-me os braços.
Escondamo-nos um no seio do outro.
Não há que assim nos avistar a morte,
Ou morreremos juntos.


Não fales muito. Uma palavra basta
Murmurada, em segredo, ao pé do ouvido.
Nada, nada de voz, _ nem um suspiro,
Nem um arfar mais forte.


Fala-me só com o revolver dos olhos.
Tenho-me afeito à inteligência deles.
Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto,
Somente para os meus beijos.




Ao gozo, ao gozo, amiga. O chão que pisas
A cada instante lhe oferece a cova.
Pisemos devagar. Olhe que a terra
Não sinta o nosso peso." 


-- Junqueira Freire.






Marginália das Cidades

Noite escura,
Olhos assustados,
Intensões obscuras,
Pensamentos preocupados.
Realidade.
Realidade do dia,
Da noite,
Da tarde.
Realidade que vimos agora
E agora já é tarde.
Olha lá!
No ponto de ônibus.
Olha lá na travessia
Ele que é um marginal,
À margem...
Olha lá!
Atrás do luxo fica o lixo.
Um marginal,
Quase um animal...
Ele tem sentimento.
Ele tem sentimento?
Será que ele tem argumentos?
Será que ele traz documentos?
Quem é o culpado?
Quem paga por isso?
Olha lá!
Migalha do luxo na boca do lixo.
Olha lá
Um podre fruto social
Trazendo medo e fúria na sua bagagem.
Olhe bem, 
Não é um animal
E mal sabe disso, sempre à margem.

Gato de Rua

Desejo tudo o que é fora da lei.
Noite, Lua, faróis, fumaça,
Marginais à solta, perigo,
Farra, luxo, lixo, férreos,
A sexualidade, a cidade enfeitada vagabunda,
A afronta de medos e coragens...
A noite é fora da lei
E eu prefiro guardar em mim algo misterioso,
Pois tenho pensamentos sórdidos nesta alma suicida.




Desejo tudo o que é fora da lei.
Vive a insônia em meu corpo desertor
E prefiro afogar-me a desistir deste naufrágio.
Eu sou mesmo um espírito louco!
Eu sou pura teimosia e egoísmo
Na busca da boêmia perfeição!
Me atrai tudo que brilha no escuro
Porque o próprio escuro sou eu,
Astro que sobressai nas coisas iguais.


Desejo tudo o que é fora da lei.
Eu sinto insônia e desassossego,
Desobedeço mesmo sabendo que vou perder,
Porque prefiro afogar-me a desistir do náufrago
Que afunda dentro de mim...
A noite é para os marginais
Que, como eu, são o próprio escuro
Que sobressai nas coisas iguais
Fora da lei e sem futuro.
















Canivetes


Eles vêm com um toque frio,
Sempre um corte frio...
Não sei se isso é de mim
que irrita, machuca e anseia.
Eu quero sempre muito mais do que posso,
Só que tudo tem seu toque frio
E eles querem me ver igual, anormal, à toa,
Que eu mire e atire em qualquer pessoa,
Querem me desumanizar!
Eu aprendo a ter um toque frio
Numa vida vazia que comprime
E eles gritam à toa!
Não estou numa boa, mas não vou me matar!
Acho que em mim ainda posso confiar...
Eu que só não aceito esse toque frio;
Eu que só não aceito ser objeto;
Eu que só não aceito ser igual aos canivetes!
Não, eu não estou numa boa,
Mas não atiro em qualquer pessoa
E não vou morrer e não vou matar!
Acho que em mim ainda pode confiar,
Mas de olhos bem abertos.
E lá virá mais um toque frio...
Acho que isso é mesmo de mim.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Infinito



"If the doors of perception were cleansed, every thing would appear to man as it is: infinite."

(Se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria ao homem como realmente é: infinito.)

-- William Blake.

Meia Noite

Meia noite, meia lua
E mil ideias pra esquecer.
Já não há um caminho reto,
Um destino certo
E nem tempo pra resolver.
Olho às costas e vejo o futuro
Que eu antes procurei,
Vendo agora meus enganos,
Sonhos tortos, longos planos
Nesse tempo que gastei.




E eu ainda te procuro
Com a mesma ansiedade de antes,
Mas agora é tarde,
Eu fiquei sonhando
E se passou aquele instante.
E agora à meia Lua
A meia noite me devora
Tenho noção,
Mas quero perdê-la
Enquanto vejo a noite lá fora.

Tendo a Lua...

aquela gravidade onde o homem flutua,
merecia a visita, não de militares, mas de bailarinos
e de você e eu.


-- Herbert Vianna


Kosmic Blues

"Eu compus Kosmic Blues com um K. É uma viagem muito desesperada para ser levada a sério, tem que ser como uma piada, senão não dá pra aguentar. 
Kosmic Blues quer dizer que não importa o que você faça, não vai ganhar a guerra. 
Quando eu era mais nova, as pessoas me diziam que eu era infeliz porque estava na adolescência, mas que um dia tudo ia ficar legal. E eu acreditava. Primeiro achava que quando o homem certo aparecesse, seria a hora, depois que quando eu pudesse trepar em paz, depois que se eu conseguisse algum dinheiro, etc. Até que um dia, sentada num bar, entendi de repente que nunca ia acontecer nada, que nunca ia ficar legal, que o tempo todo tem alguma coisa errada, sempre, só muda o problema. Não era um prazo de espera, era toda a minha vida..."

-- Janis Joplin, em entrevista a David Dalton.



E eu acho que é isso mesmo... Mas realmente não faz diferença... Na verdade, eu acho que é meio que um alívio descobrir como realmente é a vida. A verdade liberta através da dor. Mas depois que você compreende, fica mais fácil viver...

Pessoa que Vai

Entre as luzes da noite
Eu vagueio sem rumo
No meu traje de luto
A quase tudo que morreu,
Me encontro entre os cheiros
E toques e sons,
Entre cigarros, batons,
Entre nobres plebeus.
Agora sou parte da cidade
E não pretendo ser mais nada
Que um pedaço da verdade,
De alma limpa e desarmada
À queda neste buraco
De ser também uma pessoa,
Mais uma que fica de lado
Como um papel qualquer que voa...
Sei que estamos todos perdidos
No que nos foi concretizado,
Mas sofrer por sermos livres
É o mais infame pecado.

Índio sem Tribo

Não tenho pátria,
Sou um índio sem tribo,
Um rei sem súditos e sem prata,
Um pobre faminto sem trigo.
E estou procurando minha turma
Sozinho, sozinho, sozinho...
Vendo se me esbarro com meu bando
Do qual me perdi no caminho.
Qual é a sua tribo?


Quem sabe eu não encontre nada,
Seja eu um exilado por natureza.
Quem sabe eu deva andar sem rumo e sem ninguém na estrada,
Sem vontade, sem armas, sem certeza.
Porque eu sou um bicho na selva
Sem ter onde ir e sem ter com quem brincar
Ou parte afastada da relva,
Um caçador sem caça pra caçar.
E qual é a sua tribo?


Índio quer apito, mas sabe que pode gritar
E não grita, talvez, por temer o que ecoa...
Eterna dança da chuva agora iremos dançar
Enquanto, junto aos pássaros, o tempo voa.
Pois eu não tenho pátria,
Sou um índio sem tribo,
Um rei sem súditos e sem prata,
Um pobre faminto sem trigo...
Ei! Qual é a sua tribo?





Lunático



Vivo no mundo da Lua,
Satélite próximo de mim,
E eu perdido estou
Nesta vaga luz de marfim,
Querendo o fogo e vendo-o apagar-se
Nas minhas frias e inquietas mãos.
Se neste instante o dia chegasse
Anoiteceria meu coração...
Sonho com o alto mar
Em uma noite negra, como nosso olhar,
Vejo palavras sobre o que nunca irei alcançar
De mistérios que nunca terei...
E minhas palavras estão carregadas de significados que não irá decifrar.
Eu sofro, porque eu sei...
Não tenho coragem de saltar daqui da Lua,
Pois não tenho onde ir.
Sei de tudo isso! Sei tanto
Sobre o que não sei e o que me dói no coração,
Sei que derramarei por toda a Terra o meu pranto
E que por não ter a Verdade vivo numa inconstante ilusão!
E essa Verdade é clara e branca e imutável,
Por mais que pareça estar sempre a mudar,
Como a Lua, ser tão belo num planeta deplorável.
Quem quiser, é só abrir os olhos e enxergar.







Perfeito pra Mim

Te amo em cada gesto,
Em cada mania e em todo o resto.
Te amo em alma e te amo em sexo,
Na calma, na fúria, na alegria sem nexo.
Amo teus cachos e tua voz rouca,
Tuas ideias equivocadas,
Amo teus olhos e amo tua boca,
Teu gosto, tua partida, tua chegada...
Amo tua risada!

Te amo em cada gesto,
Amo teus defeitos que nos outros detesto,
Amo tua imperfeição e o resto.
Teu amor, meu amor, é meu chão perplexo!
Amo teu espírito intenso, imenso, complexo.
Tuas mãos, teu dom, tua poesia,
Tua consonância, teu tom, tua ousadia,
Toda essa repetição equivocada,
Toda essa vida no teu olhar avistada...


Amo tua solidão acompanhada de liberdade,
Teu egoísmo solidário e tua vaidade,
Tua maravilhosa sinceridade...
Tua sublime confiança, eu amo; 
Tua solene importância, eu aclamo;
Teus truques e efeitos, perfeitos pra mim,
Tua linda imagem do início ao fim.
Amo teus desejos, teus desprezos, teus despejos,
Defeitos assim,
Tão errados pro mundo e tão perfeitos pra mim.

Corsário

Meu coração tropical está coberto de neve, mas
Ferve em seu cofre gelado, a voz vibra e a mão escreve "mar".
Bendita lâmina grave que fere a parede e traz
As febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais.

Roseirais!
Nova Granada de Espanha,
Por você,
Eu, teu corsário preso,
Vou partir a geleira azul da solidão
E buscar a mão do mar,
Me arrastar até o mar,
Procurar o mar...

Mesmo que eu mande em garrafas mensagens por todo o mar,
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Com as garrafas de náufragos e as rosas partindo o ar,
Nova granada de Espanha e as rosas partindo o ar...

--> João Bosco.



Negro Gato

O tempo vai passando e eu vou me perdendo
No meio de tantos medos, no meio de tanto frio.
Antes eu era uma ave livre,
Antes era antes...
Hoje sou um gato
Em ruas torvas, amedrontado,
Buscando em suas sombras
Um pouco de coragem, um pouco de luz.
Negro gato por si e só por si amado
E só por ter se abandonado
E só por ser tão complicado,
Gato, negro gato, só por natureza
Por já não ter certeza
por ter um coração aprisionado.


Dizem: "Ele não é bruxo, não é um feiticeiro,
Mas esconde trevas no seu jeito faceiro
E naqueles olhos tão determinados."
Assim vive morrendo um negro gato, 
       
Pagando em cada uma de suas sete vidas
Um pouco do erro de cada ato,
Vivendo pelas esquinas escuras e aguentando as feridas,
Fazendo dos dias selva de negro pecado...
Eu sou a alma pura de um negro gato;
Eu sou a ratoeira viva de um pobre rato;
Eu sou o desalento, o próprio desacato
Catando em suas sete vidas, sete faces, sete rastros...
Eu sou o aflito, eu sou o atormentado,
Solitário e temido e faminto negro gato.


E as ruas vão passando e eu vou me perdendo
No meio de tantos meios, no meio de tantos fios.
Antes eu era uma pobre ave livre,
Hoje sou um predador de sete vidas;
Hoje sou um caçador dos própris sonhos;
Hoje sou um nada do caminho tristonho
Vagando pelas ruas desertas do passado,
Andando na selva bruta do futuro embaçado,
Pagando no presente, tirano destino, os pecados,
Apagando luzes nos becos e sumindo,
Eu sou o negro gato.







"Carpe Diem,

quam minimum credula postero."



Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã!
Não perguntes, saber é proibido [...];
Se muitos invernos Júpiter te dará ou se este será o último, que agora bate nas rochas da praia com as ondas do mar...
Seja sábio, beba o seu vinho e para o curto prazo reescale suas esperanças.
Mesmo enquanto falamos, o tempo ciumento está fugindo de nós.
Colhe o dia, confia o mínimo no amanhã.


-- Odes [11.8] do poeta Horácio.